CITAÇÕES PAGÃS E FLÓFICAS DO APÓSTOLO PAULO
Prof. Raymundo Cortizo Perez, (Th.D.)
O apóstolo Paulo fez citações de autores pagãos e filósofos gregos não porque ele apoiava o paganismo, mas como uma estratégia de comunicação e evangelismo para se conectar com o seu público. Ele utilizava conceitos conhecidos da cultura local para construir uma ponte lógica e, a partir daí, apresentar a mensagem cristã.
O próprio Paulo resume essa abordagem em sua primeira carta aos Coríntios: “Fiz-me como judeu para os judeu, para ganhar os judeus... Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios salvar alguns” (1 Coríntios 9:20-22).
Exemplos práticos dessas citações
- O "Deus Desconhecido" em Atenas (Atos 17:28):
Ao discursar no Areópago para filósofos estoicos e epicureus, Paulo cita os poetas Arato e Epimênides ao dizer: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.” Ele usou uma verdade genérica contida na poesia deles para redirecionar a adoração ao Deus verdadeiro. - Alerta sobre más companhias (1 Coríntios 15:33):
Paulo escreve: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes.” Esta é uma citação direta da peça Thaïs, do dramaturgo grego Menandro. Ele usa um ditado popular da época para reforçar um princípio moral cristão. - Crítica aos cretenses (Tito 1:12):
Ao falar sobre os problemas de caráter do povo de Creta, ele cita novamente o filósofo Epimênides: “Um deles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins, ventres preguiçosos.” Aqui, ele usa a autoridade de um autor local para validar sua exortação.
Por que ele fazia isso?
- Pontes Culturais: Ele não começava a conversa condenando a cultura grega, mas encontrando pontos de contato onde a verdade (mesmo que parcial) já estava expressa.
- Credibilidade: Demonstrar conhecimento da literatura e filosofia da época ajudava Paulo a ser ouvido por intelectuais e autoridades do Império Romano.
- Ressignificação: Ele pegava conceitos do pensamento grego e os preenchia com o significado do Evangelho, mostrando que o que os filósofos buscavam de forma imperfeita encontrava resposta plena em Jesus Cristo.
O significado teológico dessas citações está profundamente ligado à Revelação Geral e à Soberania de Deus sobre a verdade. Paulo partia do princípio de que, embora a cultura pagã estivesse corrompida pela idolatria, Deus não havia se deixado ficar sem testemunho na história humana.
Veja a análise teológica por trás das principais citações:
1. "Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos" (Atos 17:28)
- Origem: Atribuído ao poeta filosófico Epimênides (e complementado por Arato). Originalmente, o poema celebrava o deus Zeus como a fonte da vida cósmica.
- Significado Teológico:
- Ressignificação do Ser: Paulo desvincula a frase de Zeus e a aplica ao Deus Criador do Gênesis. Teologicamente, ele demonstra a Imanência de Deus — a doutrina de que Deus está ativamente presente e sustentando toda a criação, não sendo um ser distante e indiferente (como os epicureus pensavam).
- Paternidade Criacional vs. Paternidade Redentora: Ao usar a frase "Pois somos também sua geração", Paulo estabelece que todos os seres humanos são "filhos" de Deus no sentido biológico e existencial da criação. Ele usa isso para mostrar a incoerência da idolatria: se somos a imagem do Deus vivo, Deus não pode ser representado por ouro, prata ou pedra esculpida por mãos humanas.
2. "As más conversações corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15:33)
- Origem: Da peça teatral Thaïs, do dramaturgo grego Menandro.
- Significado Teológico:
- A Verdade Humana subordinada à Verdade Divina: O contexto deste capítulo é a defesa teológica da Ressurreição de Cristo. Alguns em Corinto estavam sendo influenciados pelo ceticismo grego (que rejeitava a ressurreição do corpo).
- Santidade e Ortodoxia: Paulo insere esse ditado secular para alertar que a heresia teológica não opera no vácuo; ela corrompe a moralidade prática. O significado teológico aqui é o da separação do erro: a má teologia destrói a vida cristã sadia, e andar com quem nega as verdades fundamentais da fé põe em risco a caminhada da igreja.
3. "Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ruins..." (Tito 1:12)
- Origem: Novamente de Epimênides de Creta.
- Significado Teológico:
- O Diagnóstico do Pecado e a Necessidade da Graça: Paulo usa essa frase não por preconceito étnico, mas para validar o conceito teológico da Depravação Total e do pecado estrutural que afetava aquela cultura específica.
- A Eficácia do Evangelho sobre a Cultura: Se a própria literatura local reconhecia que o caráter daquele povo era corrompido, a liderança da igreja (Tito) precisava ser firme. O peso teológico está no contraste: o Evangelho tem o poder de transformar até mesmo a cultura mais "bestial" e mentirosa em uma comunidade de santos que vivem na verdade.
O Conceito Teológico Central: Pilhar os Egípcios
Na história da teologia, a atitude de Paulo gerou um conceito clássico formalizado mais tarde por Santo Agostinho: "Pilhar os egípcios" (uma metáfora de quando os israelitas saíram do Egito levando o ouro deles para construir o Tabernáculo).
Teologicamente, isso significa que toda verdade é verdade de Deus, não importa onde ela seja encontrada. Se um filósofo pagão disse algo verdadeiro sobre a existência ou a moralidade, essa verdade pertence legitimamente ao Criador e pode ser usada para a glória de Deus.
Se quiser aprofundar ainda mais, posso mostrar como o pensamento de filósofos específicos (como os Estoicos) se chocava ou se alinhava com a teologia de Paulo em Atos. Qual o seu interesse nessa área?
O apóstolo Paulo citou poetas e filósofos pagãos em três passagens principais do Novo Testamento para dialogar com a cultura grega e defender o Evangelho.
1. Arato e Epimênides (Atos 17:28)
- Onde: No Sermão do Areópago em Atenas.
- A citação: "Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como até mesmo alguns dos vossos poetas disseram: 'Porque dele também somos geração'".
- O autor: A primeira parte ecoa o filósofo e poeta estóico Arato (no poema Phaenomena) e também o cretense Epimênides (no texto Crética).
2. Menandro (1 Coríntios 15:33)
- Onde: Na carta aos cristãos de Corinto.
- A citação: "As más conversações corrompem os bons costumes".
- O autor: É uma citação direta de uma comédia do poeta grego Menandro (da peça Thais).
3. Epimênides (Tito 1:12)
- Onde: Na carta de Paulo a Tito, ao falar sobre o povo de Creta.
- A citação: "Os cretenses são sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos".
- O autor: Paulo atribui a frase a um "próprio profeta" deles, que era o poeta Epimênides de Cnossos.
- O uso dessas citações por Paulo não foi um mero acaso; foi uma estratégia de comunicação brilhante chamada contextualização.Para entender por que ele fez isso, precisamos mergulhar no contexto histórico e cultural do primeiro século, dividindo os motivos em três pontos principais:
1. O Contexto de Atenas: O Debate no Areópago (Atos 17)
Quando Paulo chegou a Atenas, a cidade já não era a potência militar de antes, mas continuava sendo a capital intelectual e cultural do Império Romano. O Areópago era uma espécie de conselho supremo de filósofos, juízes e intelectuais.- O público: Paulo estava debatendo com Estoicos e Epicureus. Os estoicos acreditavam que Deus era uma força racional imanente que preenchia o universo. Os epicureus viam os deuses como seres distantes que não se importavam com a humanidade.
- A estratégia (Por que citar Arato e Epimênides?): Se Paulo começasse a pregar citando as Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento), aqueles filósofos gregos simplesmente o ignorariam, pois não reconheciam a autoridade da Bíblia judaica.
- O ponto de contato: Ao citar Arato ("Pois somos também sua geração"), Paulo usa uma ideia que os gregos já aceitavam para construir uma ponte. Ele basicamente disse: "Olhem, até mesmo os seus próprios poetas entenderam uma parte da verdade: nós viemos de Deus". A partir desse ponto em comum, ele corrige a idolatria grega, explicando que, se somos geração de Deus, Deus não pode ser uma estátua de ouro ou pedra feita por mãos humanas.
2. O Contexto de Corinto: A Cultura do Teatro (1 Coríntios 15)
Corinto era uma cidade portuária, cosmopolita, rica e moralmente complexa. O teatro e a filosofia popular faziam parte do cotidiano de qualquer cidadão.- A estratégia (Por que citar Menandro?): Ao dizer que "as más conversações corrompem os bons costumes", Paulo estava usando uma frase que todo mundo conhecia, quase como um provérbio popular ou um "meme" da época.
- O impacto: Ao usar um fragmento cultural da própria cidade, Paulo torna sua advertência ética memorável. Era uma forma de dizer: "Até o teatro de vocês reconhece que andar com quem não presta estraga o seu caráter".
3. O Contexto de Creta: O Alerta Pastoral (Tito 1)
A ilha de Creta tinha uma fama terrível no mundo antigo. O verbo "cretizar" (em grego, kretizein) era usado na época como sinônimo de "mentir".- A estratégia (Por que citar Epimênides?): Epimênides era um filósofo e "profeta" nascido em Creta no século VI a.C. Ao citá-lo dizendo que "os cretenses são sempre mentirosos", Paulo estava usando um argumento de autoridade inquestionável.
- O impacto: Paulo usa a autocrítica do próprio povo de Creta para alertar Tito sobre o perigo de falsos mestres locais. Tito não poderia ser acusado de preconceito contra os cretenses, afinal, era o maior poeta da história de Creta quem estava dizendo aquilo.
Em resumo: Por que Paulo fez isso?
- Demonstrar respeito e conhecimento: Ele provou que não era um "bárbaro ignorante". Ele conhecia a cultura, a literatura e o pensamento deles.
- Construir pontes culturais: Ele encontrou verdades parciais na cultura pagã e as usou como ponto de partida para apresentar a verdade completa do Evangelho.
- Princípio da Encarnação Missional: O próprio Paulo resume sua filosofia de pregação em 1 Coríntios 9:22: "Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns". Ele falava a língua do povo para ser ouvido.
Se você tiver interesse, posso recomendar alguns livros ou comentários bíblicos históricos que aprofundam a vida cotidiana no Império Romano no primeiro século, ou podemos analisar a estrutura teológica completa do discurso de Paulo em Atenas. O que prefere?
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