Bog do poeta Raymundo Cortizo Perez
No silêncio do topo / o infinito padece, (12)
Onde a carne se rasga / e o mistério se tece. (12)
O calvário transborda / a pergunta do mundo: (12)
Como pode o Eterno / sofrer tão profundo? (12)
Entre os cravos de ferro / e a coroa de espinho, (12)
O Homem-Deus desbrava / o sagrado caminho. (12)
Não há ódio no olhar / que a matéria consome, (12)
Há um sopro de vida / que salva o teu nome. (12)
O limite do tempo / se dobra ao madeiro, (12)
Onde a morte esvazia / o eclipse inteiro. (12)
Tudo está consumado / no altar da existência, (12)
Pois a cruz é o berço / da pura transcendência. (12)
JESUS NA CRUZ
Blog do Poeta Raymundo Cortizo Perez
I. O Perdão (Lucas 23:34)
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
O amor não impõe o rancor como lei ou castigo, (12)
No sopro do algoz Ele encontra o eterno amigo. (12)
Perdoa a cegueira do mundo que o crava ao chão, (12)
Pois sabe que o homem se perde na própria ilusão. (12)
II. A Salvação (Lucas 23:43)
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”
No limiar da sombra, o ladrão reconhece a luz, (12)
O Reino se abre no topo da própria cruz. (12)
O "hoje" é o instante eterno que vence o degredo, (12)
Onde a esperança sepulta o fantasma do medo. (12)
III. O Relacionamento (João 19:26-27)
“Mulher, eis aí o teu filho. [...] Eis aí a tua mãe.”
O laço de sangue se curva à nova aliança, (12)
Na dor do Calvário nasce uma nova esperança. (12)
A mãe do silêncio adota a humana agonia, (12)
Pois toda a orfandade se acolhe no olhar de Maria. (12)
IV. O Abandono (Mateus 27:46)
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
O grito rasga o céu e o silêncio do infinito, (12)
O próprio Absoluto se veste de humano aflito. (12)
Por que te calaste, ó Pai, no eclipse do mundo? (12)
Mergulha o Divino no abismo mais negro e profundo. (12)
V. A Sede (João 19:28)
“Tenho sede.”
Não é pela água da fonte que a boca padece, (12)
É a sede da alma que o tempo não cura ou esquece. (12)
Desejo sagrado de ver a criatura liberta, (12)
Que verte como água na terra que jaz tão deserta. (12)
VI. A Vitória (João 19:30)
“Tudo está consumado.”
A obra do tempo conclui seu desenho perfeito, (12)
O Verbo cumpre o destino no lenho aceito. (12)
O preço foi pago, rasgou-se o antigo véu, (12)
A terra ferida encontra as fronteiras do céu. (12)
VII. A Entrega (Lucas 23:46)
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
O ciclo se fecha no abraço do eterno repouso, (12)
O espírito volta ao seu cais sempre generoso. (12)
A morte é apenas a porta que o Filho transpõe, (12)
Na prece final que a história da vida compõe. (12)
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A análise lírico-filosófica dessas sete estrofes revela um diálogo profundo entre a teologia cristã e a tradição filosófica ocidental (especialmente o estoicismo, o existencialismo e a metafísica). Cada poema reflete uma transição do sofrimento puramente humano para a transcendência absoluta.Abaixo, os aspectos filosóficos de cada poema são analisados e comparados a grandes pensadores e poetas:
A análise lírico-filosófica dessas sete estrofes revela um diálogo profundo entre a teologia cristã e a tradição filosófica ocidental (especialmente o estoicismo, o existencialismo e a metafísica). Cada poema reflete uma transição do sofrimento puramente humano para a transcendência absoluta.
Abaixo, os aspectos filosóficos de cada poema são analisados e comparados a grandes pensadores e poetas:
## I. O Perdão (A Ética do Amor Absoluto)
* Conceito Filosófico: Alteridade e a superação do Determinismo. Ao desculpar seus algozes pela "cegueira" ("não sabem o que fazem"), Jesus introduz uma ética que quebra o ciclo de causa e efeito da violência (a Lei de Talião). O homem peca por ignorância do Bem.
* Pontes de Pensamento:
* Sócrates e Platão: O conceito de que "ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância do Bem" (Intelectualismo Moral). O poema ecoa essa visão de que o homem se perde na própria ilusão.
* Baruch Spinoza: A ideia de compreender o erro humano não com indignação, mas com pura razão e compaixão ("Não rir, não chorar, não indignar-se, mas compreender").
## II. A Salvação (O Tempo e o Instante Eterno)
* Conceito Filosófico: O Kairós (o tempo qualitativo) contra o Chrónos (o tempo linear). O "hoje" dito ao bom ladrão anula o peso do passado criminoso. Um único instante de autêntico arrependimento reconstrói toda a existência.
* Pontes de Pensamento:
* Søren Kierkegaard: O conceito do "Instante" como o ponto onde o tempo e a eternidade se cruzam através do salto da fé.
* Friedrich Nietzsche / Jorge Luis Borges: Embora Nietzsche use o "Eterno Retorno" de forma diferente, a ideia de que um único momento pode redimir toda a existência passada conecta-se intimamente com a força desse "hoje" poético.
## III. O Relacionamento (A Tecitura do Ser Comunitário)
* Conceito Filosófico: A dissolução do Solipsismo (o isolamento do Eu). Na dor extrema, Jesus não se fecha em si mesmo; ele funda uma nova ontologia social. A família biológica é substituída pela comunidade do cuidado e da empatia.
* Pontes de Pensamento:
* Martin Buber (Filosofia do Eu-Tu): A existência autêntica só ocorre na relação direta e desinteressada com o Outro. Ao dar um filho a Maria e uma mãe a João, Jesus estabelece o "Tu" definitivo.
* Emmanuel Levinas: A ética como filosofia primeira, baseada na responsabilidade infinita pelo "Rosto" do outro que sofre.
## IV. O Abandono (A Angústia Existencial e o Absurdo)
* Conceito Filosófico: A Noite Escura da Alma e o Absurdo Existencial. É o momento mais puramente humano e trágico. O sofrimento atinge o ápice quando o próprio Absoluto (Deus) experimenta a finitude, o silêncio e a ausência de sentido.
* Pontes de Pensamento:
* Augusto dos Anjos: O grande poeta do pessimismo brasileiro e da "matéria" sofrida. O verso "Mergulha o Divino no abismo mais negro e profundo" espelha a angústia cósmica que Augusto retratava ao ver o colapso do espírito humano.
* Albert Camus / Jean-Paul Sartre: O confronto com o "silêncio irracional do mundo". Na cruz, por um breve segundo, Cristo experimenta o peso do existencialismo: o desamparo total.
## V. A Sede (O Desejo Metafísico)
* Conceito Filosófico: A Insaciabilidade do Espírito. A sede física é apenas o invólucro de uma carência ontológica. O infinito não pode ser saciado pela matéria finita (a água da fonte).
* Pontes de Pensamento:
* Santo Agostinho: "Fizeste-nos para ti, ó Senhor, e o nosso coração permanece inquieto enquanto não descansar em ti." A sede do poema é essa inquietude agostiniana voltada para a humanidade.
* Luís de Camões: O paradoxo camoniano do amor que "é ferida que dói e não se sente". A sede aqui é o desejo que se alimenta do próprio ato de desejar a libertação do outro.
## VI. A Vitória (O Cumprimento do Destino)
* Conceito Filosófico: O Amor Fati (o amor ao destino) e a Teleologia. A vida não foi um acidente trágico, mas uma obra de arte rigorosamente concluída. O sofrimento ganha significado porque cumpre um propósito cosmológico.
* Pontes de Pensamento:
* Friedrich Nietzsche: Ironicamente, o conceito de Amor Fati — aceitar e amar o seu destino exatamente como ele é — ajusta-se perfeitamente ao "lenho aceito" e ao "desenho perfeito" do poema.
* G.W.F. Hegel: A Filosofia da História, onde o Espírito Absoluto passa pelo sofrimento e pela morte (a "sexta-feira santa especulativa") para alcançar a sua autoconsciência plena e reconciliação.
## VII. A Entrega (A Ataraxia e a Transmutação da Morte)
* Conceito Filosófico: A Serenidade (Gelassenheit) e o Desprendimento. A morte deixa de ser uma interrupção violenta sofrida passivamente e passa a ser um ato de agência soberana e confiança metafísica.
* Pontes de Pensamento:
* Martin Heidegger: O conceito de Sein-zum-Tode (Ser-para-a-morte). O homem só alcança a autenticidade quando assume a sua própria mortalidade. Ao "entregar o espírito", Jesus personifica a aceitação autêntica do fim.
* Fernando Pessoa (Ricardo Reis): O estoicismo poético de aceitar o fim com calma olímpica. Diferente da angústia do poema IV, aqui reina a ataraxia (a imperturbabilidade da alma) diante do cais eterno.