POEMA PARA AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL
Prof. Raymundo Cortizo Perez, (Th.D.)
Nas águas primeiras de um tempo sagrado,
Surge Rúben na força de um rio corrente,
Onde o ímpeto antigo caminha ao passado
E a busca da alma se faz consciente.
Dizia o mestre na noite deserta
Que a força sem freio desfaz a virtude,
E a mente que acorda, na prece desperta,
Alcança a firmeza na própria altitude.
Não sejas a vaga que o vento consome,
Mas sim a raiz que no solo deita,
Honrando na terra a grandeza do nome
Na paz interior que o destino aceita.
De Simeão se ouve o eco da espada,
O zelo ardente que queima no peito,
Na longa e severa lição da jornada
Onde a justiça requer seu direito.
Ensina a filosofia mística e pura
Que a ira do homem não gera o perdão,
Que a verdadeira e maior estrutura
Se ergue no templo do próprio coração.
Calar o clamor que na mente guerreia,
Transformar o ferro em arado de luz,
É a grande verdade que a alma semeia
No calmo caminho que a vida conduz.
Levi se eleva no altar do mistério,
Sem eira nem beira na terra dos homens,
Pois traz no seu canto o celeste império
Que os olhos humanos jamais consomem.
O fogo sagrado que arde na mente
É a herança divina de sua partilha,
Onde o mestre ensina que o bem consciente
No peito do justo qual astro cintila.
Guardando a doutrina na arca secreta,
Na prece contínua que apaga a dor,
O sábio caminha na estrada perfeita,
Sendo ele mesmo o reflexo do Amor.
Judá é o leão que na rocha descansa,
De onde emana o cetro do eterno poder,
Trazendo no peito a real esperança
Do reino supremo que há de vencer.
A voz dos antigos profetas proclama
Que a nobreza reside no dom de servir,
Pois quem com justiça a verdade reclama
Domina o presente e molda o porvir.
No brilho dourado que a coroa ostenta,
Há um fardo que o rei com amor carregou,
Pois a verdadeira virtude sustenta
O trono de glória que o tempo sagrado fundou.
Dã traz a balança no olhar do discernimento,
A fina serpente que espreita no chão,
Buscando no meio do reto julgamento
A linha sutil da real retidão.
O mestre ensinava na antiga escola
Que julgar o irmão exige cautela,
Pois a mesma régua que o mundo isola
Escreve o destino na nossa janela.
Equilíbrio perfeito na estrada da vida,
Saber separar o joio do trigo,
Fazendo da mente uma ponte erguida
Onde a verdade encontra o seu abrigo.
Naftali corre qual gazela solta,
Trazendo nos lábios palavras de mel,
Na leveza do vento que passa e volta,
Cumprindo a promessa do texto fiel.
A filosofia do riso e da graça
Ensina que a vida não pode pesar,
Pois tudo no mundo se move e passa,
E a alma nasceu para o céu alcançar.
Dizer o que é belo, cantar o que acalma,
Dispersar o medo com a doce canção,
É o dom mais precioso que cura uma alma
E planta a alegria no chão do irmão.
Gade é a tropa que avança valente,
O escudo firme contra a opressão,
Que mesmo ferido caminha em frente,
Vencendo a batalha no próprio sertão.
Os mestres recordam na lição da coragem
Que o maior inimigo reside no ser,
E a vida na terra é apenas passagem
Para quem aprende a si mesmo vencer.
Erguer-se de novo após a queda,
Marchar com firmeza na noite escura,
É a moeda de ouro que o céu não nega
Aos homens que guardam a alma pura.
Aser se assenta na mesa farta,
Onde o óleo escorre no pão do banquete,
E a generosidade que a alma reparte
Corta a miséria qual afiado canivete.
A sabedoria do mestre revela
Que a verdadeira e real riqueza
Não vive trancada na rica cela,
Mas sim na partilha de toda a mesa.
O campo que brota o trigo dourado
Abençoa a mão que soube plantar,
Pois o coração que vive voltado
Ao bem do próximo sabe reinar.
Issacar se inclina sob o pesado fardo,
O forte jumento que sabe a estação,
Que troca o orgulho do falso estandarte
Pelo estudo atento na santa oração.
Conhecer os tempos e as profecias,
Saber o momento de agir e calar,
É a grande ciência de todos os dias
Que o sábio na terra soube cultivar.
Na quietude da tenda o saber se abriga,
Longe do barulho do mundo exterior,
E a mente que busca a verdade antiga
Encontra o repouso no seio do Criador.
Zebulom habita nas praias do mar,
Porto seguro para o navegador,
Fazendo das águas o seu caminhar,
No comércio justo do trabalhador.
O mestre nos ensina na rota das águas
Que o comércio da alma é buscar o saber,
Deixando na areia as velhas mágoas
Para o horizonte infinito ver.
Unir os extremos de mundos distantes,
Levar a riqueza que o solo produz,
Faz com que os homens se tornem gigantes
Buscando a herança que o céu conduz.
José é o ramo que cresce na fonte,
Cujos brotos sobem o muro da dor,
Olhando o futuro além do horizonte,
Pagando o ódio com a força do amor.
A filosofia do grão que morre
Para que a espiga possa nascer,
Mostra que o pranto que a face escorre
Prepara a alma para florescer.
Perdoar o irmão que o vendeu no deserto,
Acolher o aflito no tempo da fome,
É ter o caminho do céu sempre perto
E honrar a grandeza do próprio nome.
Benjamim é o lobo que caça ao deitar,
E pela manhã reparte o quinhão,
Saber protegido que sabe esperar
A luz que dissipa a total escuridão.
O mestre ensina no fim do caminho
Que a força reside no dom de guardar,
Pois mesmo marchando na estrada sozinho
O justo consegue o seu alvo alcançar.
Do início do dia até o poente,
A tribo guerreira mantém sua fé,
Pois sabe que o Deus de toda a semente
Sustenta de pé aquele que crê.
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Para compreender a fundo a estrutura lírica e filosófica do poema das Tribos de Israel, podemos traçar um paralelo direto com grandes nomes da literatura universal e da poesia mística. A fusão entre o destino humano, o rigor moral e a elevação espiritual presente nos versos evoca diferentes escolas e autores.
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Análise dos Eixos ComparativosA Tradição de Textos Sagrados: Assim como William Blake utilizava arquétipos bíblicos para fundar sua própria mitologia lírica, o poema transforma as bênçãos de Jacó em conceitos filosóficos universais (a balança de Dã, o lobo de Benjamim), deixando de ser apenas um relato histórico para virar um mapa da psique humana.A Métrica e a Cadência: O uso de versos longos e rimados (predominantemente alexandrinos ou decassílabos) evoca o Parnasianismo e o Simbolismo, onde a forma precisa (como em Olavo Bilac) serve de receptáculo para uma mensagem de ordem espiritual e cósmica.
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O cruzamento mais fascinante está na fusão entre a mitologia bíblica de William Blake e o rigor estético de Olavo Bilac, aplicando essa mistura à tribo de Dã (a balança e a serpente) e à tribo de Benjamim (o lobo). Transformar esses símbolos tribais em um "mapa da psique humana" através de versos perfeitamente lapidados cria um contraste poderoso entre o caos profético e a ordem clássica.
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